
Essa é a Grande Shumuã, idade estimada de 120 anos, da mesma família que a Samaúma, a grande mãe da Floresta. Pelos cálculos do cacique Nixiwaka, teria vivido 800 anos nessa terra dos Yawanawa. Chega-se à Shumuã percorrendo 3 km da Aldeia pela Trilha dos Antepassados – que existe igualmente há séculos, já foi parte da trilha dos indígenas que iam do que hoje é o Brasil, passando pela Bolívia e o Peru até chegar aos Andes.
Assim como a Samaúma, a Shumuã tem um espírito igual ao dos seres humanos, tem alma própria. Na sua copa, as águias fazem ninhos; nas raízes, são as onças e os jaguares, e ela engole os agressores da floresta que se aproximam, como fez nos filmes da franquia Avatar, de James Cameron. Por suas defesas, a Shumuã teria sobrevivido por milhares de anos. Considerada sagrada para os maias e muitos povos indígenas do Brasil, sua copa se projeta acima de todas as demais, servindo de proteção para outras árvores e animais.

São muitas as histórias de pessoas que morreram por tentar fazer casas embaixo da Shumuã ou algum trabalho espiritual sem a permissão dos pajés. Sua importância é tanta que somente o cacique Nixiwaka ou sua mulher e líder espiritual Putany podem trazer visitantes para conhecê-la, ninguém mais está autorizado sem a permissão dos dois. Nessas ocasiões, são muitas as cantorias e rituais de saudação à “árvore-mãe”.

Pela trilha, que atravessa riachos, troncos de árvores improvisados como pontes sobre barrancos e muito mato, o cacique Nixiwaka identifica pegadas de uma onça. Sim, uma onça. Depois de três anos de proibição à caça de pacas, porquinhos do mato, antas e outros animais dentro da reserva da Aldeia Sagrada, as onças, atraídas pela comida “farta”, estão voltando, e conviver com elas nem sempre tem sido fácil para os Yawanawas.
Igualmente não tem sido fácil a convivência com as cobras. Elas fazem parte dos ritos e tradições medicinais, e é muito comum os povos originários terem visões com jibóias e cascavéis, que levantam a cabeça, chacoalham o “corpo” e os impulsionam a seguir adiante e buscar o que é melhor para eles.
Os Yawanawa e outros povos da Ayahuasca são combativos politicamente, foram os primeiros a conseguir demarcar oficialmente suas terras, estão entre os que lideraram a resistência ao Marco Temporal, unem-se em defesa dos indígenas ainda não contatados, vão às Assembleias Gerais da ONU denunciar abusos e às cerimonias do Uni, onde as visões com as cobras os fortalecem para continuar espiritualizados e aguerridos.

Mas o que você faz ao dar uma escapada da cerimônia às 20h30 para ir ao banheiro, 30 metros adiante, em um caminho escuro? Liga sua lanterna, dá cinco passos e se depara com uma cobra muito parecida com a coral, a terceira que encontra na semana, só que essa, nas cores preta e branca, ninguém sabe dizer ao certo se é venenosa ou não, “é uma cobra muito rara”, dizem, e daí você fica paralisada até chegar alguém em seu socorro? No dia do seu aniversário? Tem algum significado especial? Segundo o Google, sonhar com ou se deparar com uma cobra significa necessidade de renovação, de desapegar do passado. Para o pajé DuáBussē, significa que você está no meio da floresta, onde tem cobras, e precisa ter muito cuidado quando encontra alguma delas.

Estamos no oitavo dia de nossa viagem e chegou o momento de arrumar as malas para voltar para casa. Amanhã temos que estar às 7h na prainha onde ficam os barcos. O dia é dedicado à feira de trocas, podemos trocar nossas botas, capas de chuva, redes, travesseiros, lanternas e tudo o mais que quisermos por cocares, pulseiras e até mesmo saberes. Fiz uma nova consulta com o pajé DuáBussē e, quando quis saber o preço, ele me perguntou o que eu tinha para trocar. Aceitou de bom grado uma rede com mosquiteiro, uma capa de chuva e um travesseiro. Fomos à cozinha checar os últimos preparativos que a Rosa, nossa cozinheira e uma das sócias da Meni Kehea (veja mais no post final, nas dicas de onde comprar roupas temáticas da comunidade), iria providenciar para levarmos nos barcos no trajeto de volta.
